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Alcioly Gruber de Abreu: O coração perseverante de uma mãe

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Por meio desta homenagem à senhora Alcioly, a Revista Visual Guarapuava pretende ressaltar a perseverança e força de tantas mulheres que lutam na vida pessoal e profissional e transcendem com fé e esperança um dos mais tristes momentos da vida: a morte de um filho

Por Revista Visual
Foto: Sandra Hyczy

A morte de um filho inverte a narrativa que é imaginada quando constrói-se uma família. Espera-se que seja respeitada a ordem natural dos encontros e das despedidas, que o ciclo se complete. Quando algo subverte esta lógica, a dor é intensa para os pais e marca a memória da família, como se sempre faltasse uma parte da história. Uma mãe carrega seu rebento no ventre, o nutre com sonhos e dificilmente não atravessa tempos sombrios quando é obrigada a se separar de um filho. Trazendo o tema à tona, a Revista Visual Guarapuava homenageia através deste perfil a senhora Alcioly Therezinha Gruber de Abreu, professora querida da cidade que enfrentou a depressão após o falecimento de uma filha. Embora a lembrança nunca se vá, ela relata sua trajetória com esperança de que seu relato conforte outras mulheres que se encontram em situação semelhante.

 

Família e trabalho
Filha de Alcides Gruber e Olympia Amaral Gruber e natural de Irati, Dona Alcioly tem 78 anos e é casada há 54 anos com o agropecuarista Gerson João Mendes de Abreu. A união do casal gerou cinco filhas: Maria Olimpia, Telma Regina, Ana Lúcia (in memorian), Gisele Cristina e Gislene Isabel, que são cirurgiãs dentistas, formadas pela Universidade Federal do Paraná, com especializações em várias áreas, pela USP de Bauru e pela UEL, de Londrina.

Alcioly possui um belo legado na área da educação no município, tendo sido professora universitária das disciplinas de História do Brasil e Métodos e Técnicas de Pesquisa Histórica. “Como professora da disciplina de Métodos e Técnicas de Pesquisa sugeri ao Departamento de Ciências Humanas da Fafig, hoje Unicentro, a criação de um Arquivo Histórico onde os estudantes pudessem desenvolver suas pesquisas, que evoluiu para a criação do Cedoc (Centro de Documentação e Memória da Unicentro), do qual o Arquivo Histórico faz parte”, contou.

A professora ainda se dedicou à pesquisa da História de Guarapuava, tendo muitos livros publicados, entre os quais destaca a obra “A posse e o uso da terra; modernização agropecuária de Guarapuava”, publicado pela Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte. A última obra escrita foi “Subsídios para a História de Guarapuava”, que aborda questões dos limites dos Campos de Guarapuava no século XVIII e a elucidação da data do aniversário da cidade, em 9 de dezembro.

A sua trajetória profissional começou quando ainda era solteira, na Escola Primária do Visconde de Guarapuava. Posteriormente, ela atuou na secretaria do Colégio Manoel Ribas (atual Carneiro Martins). Pouco depois, também deu aulas na escola, se aposentando deste vínculo em 1984.

“Enquanto trabalhava lá, de 1957-84, teve início a Fafig e, em 1970, meu nome foi inscrito como professora de terceiro ano do curso de História”, relembrou. Como era uma mãe e esposa dedicada, Alcioly não aceitou de imediato, mas em 1973 topou o desafio e trabalhou até o ano de 1995 no Departamento de História da Unicentro. “Acompanhamos a luta da Fafig para se tornar universidade, fiz parte das campanhas junto com o curso, que era de vanguarda e sempre se incluía em todas as ações”, relembrou.

Mesmo depois de aposentada, ela continuou fazendo parte do quadro de docentes dos cursos de pós-graduação, mas por questões relacionadas à saúde decidiu encerrar as atividades como professora. Enfrentando os desafios da vida profissional e da vida pessoal, como mãe de cinco filhas, conseguiu cursar o Mestrado na UTFPR e se mantinha sempre capacitada e atualizada.

Alcioly é membro fundadora da Alac (Academia de Letras, Artes e Ciências), do IHG (Instituto Histórico de Guarapuava) e da Adau (Associação dos Docentes Aposentados da Unicentro).

 

Dor
O momento que marcou a história de Alcioly profundamente foi o falecimento da filha Ana Lucia, em 1986. Quando a morte aconteceu, a mãe se preparava para cursar o doutorado, mas teve os planos profissionais interrompidos e passou por um momento complicado de luto e depressão. “Em junho vai fazer trinta anos que ela faleceu e até hoje, quando a data vai se aproximando, eu tenho recaídas. Acho que quem perde um filho nunca esquece. Você segue a vida, tem outros filhos, netos, bisnetos, mas a experiência nos acompanha”, disse. Ana Lucia tinha disritmia e, aos 19 anos, começou a passar mal. Quando foi levada para exames, detectou-se um tumor cerebral. Uma cirurgia foi feita, mas o tumor maligno voltou. Após 10 meses de tratamento, a jovem faleceu.

Ao longo do tempo, Alcioly teve muitos sonhos com a filha. Em uma noite, sonhou que a moça pedia para que a mãe desenhasse uma escada subindo. “Eu entendi que era uma mensagem, para eu tocar a vida, não ficar agarrada naquele sentimento. Então fui conseguindo sair da depressão. Aprendi que temos que aceitar as coisas que acontecem e colocar as angústias nas mãos de Deus, pois Ele nos dá o conforto que precisamos”. Depois do ocorrido, buscou se dedicar ainda mais para as outras filhas, com a ideia de que a família continuasse sempre unida e forte. Claro que a tristeza aparece vez ou outra, mas eles sempre procuram ficar juntos, com visitas constantes e apoio incondicional.

Atualmente, Alcioly gosta bastante de fazer crochê, assim como de palavras cruzadas. Ela conta que tem apreço por trabalhos manuais, de uma maneira geral. Nesses momentos, se concentra e esquece dos pensamentos negativos. No processo de enfrentamento da dor, a família contou com a presença fraternal de amigos. Outro canal foi a religião, por meio da conversa diária com Deus e o silêncio profundo para orações. Se fosse deixar uma mensagem para outras mães que se deparam com a mesma situação que ela precisou enfrentar, Alcioly diria que é fundamental se agarrar em algo que faça sentido, com muita esperança. “Sem fé, não aguentamos os tropeços da vida”, finalizou.

Prêmio Visconde de Guarapuava da edição nº 131 da Revista Visual Guarapuava.

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