Principal Categorias Matérias Grupo Folkloristico Anima Décadas de histórias contadas através da arte

Grupo Folkloristico Anima Décadas de histórias contadas através da arte

15 minutos para ler
0
701
Grupo Folkloristico Anima Décadas de histórias contadas através da arte

O modismo e a comodidade dos jovens são fatores que prejudicam a adesão de novos participantes. A falta de interesse por parte do poder público, segundo os organizadores em incentivar grupos artísticos, é o maior dos entraves.

Para que um povo seja conhecido fora de sua casa, é necessário que primeiro este mesmo povo, conheça suas raízes, seus costumes, sua gente. A identificação cultural é algo que deve ser preservado para que não se perca o rumo da história e para que o ponto de partida, tão importante quanto o ponto de chegada, seja o marco norteador de nossa jornada.

Há 23 anos, nascia oficialmente em Guarapuava o Grupo Ítalo-Brasileiro que depois, tornou-se o Grupo Folkloristico Anima. No entanto, a história desta junção de pessoas de origem italiana, teve seu início ainda na década de 1980, com reuniões onde eram executadas músicas folclóricas e danças. Segundo seus fundadores, o intuito da criação do grupo era a união dos povos de origem italiana que se mudou para Guarapuava em busca de uma vida melhor. A maior parte das famílias veio do Rio Grande do Sul e algumas de Santa Catarina e se estabeleceram na região do Vale do Jordão pelo fato de os terrenos possuírem características semelhantes às dos locais onde viviam em seus Estados de origem.

O terreno montanhoso e pedregoso é a base da formação da Itália. Este mesmo tipo de terreno, os imigrantes encontraram quando chegaram à Região Sul, mais precisamente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde desembarcarem primeiro trazendo consigo muitos sonhos e enfrentando grandes dificuldades. Seguindo esta mesma tradição de cultivarem a terra em regiões Grupo Folkloristico Anima Décadas de histórias contadas através da arte Por Jossan Karsten Foto: Arquivo do Grupo Anima / Jeison Primak montanhosas e com pedras, eles se estabeleceram no Vale do Jordão com os planos de lá, criarem um projeto intitulado “Cinturão Verde”, onde seriam produzidas verduras e frutas, uma tradição fortíssima do povo italiano que abasteceria a cidade e municípios vizinhos.

Quando foi criado oficialmente, em 22 de junho de 1991, o grupo era composto apenas por descendentes de italianos, mas na medida em que o tempo passou pessoas de outras etnias também foram convidadas a participarem, criando assim uma verdadeira união entre os povos, sem perder, no entanto, sua essência, puramente italiana. Desde sua fundação, o Grupo Folclórico passou a fazer parte do Círculo Ítalo- Brasileiro de Guarapuava.

Além da dança, a função do grupo é pesquisar e fazer com que seus participantes conheçam as origens dos ancestrais e passem a entender fatores variáveis, como a língua, as expressões e os costumes, que mudam de região para região na Itália e se mantiveram com suas diferenças em outros países, como o Brasil, que abriga a maior comunidade de italianos do mundo fora da Itália.

A iniciativa de formar este grupo partiu também dos jovens que sentiam a necessidade de resgatar a cultura como explica o coordenador atual do Grupo Anima, Paulo Sérgio Vieira. “A intenção dos fundadores era simples: não deixar perecer a cultura italiana e unir as pessoas para conversarem e praticarem o idioma, além de exercitarem a musicalidade e as coreografias nas danças típicas. Eles queriam preservar as tradições e os costumes. Foi uma forma que encontraram de unir estas famílias que, de certa forma, tinham características e costumes parecidos nas regiões onde viviam em outros Estados, sendo que muitos eram vizinhos e participavam das mesmas comunidades. Alguns eram descendentes diretos de pessoas que vieram da Itália, mas outros não”, explicou Paulo que é de origem portuguesa, mas que adotou a cultura italiana como sua.

Johann Pollyak, tesoureiro do Anima e um dos participantes mais assíduos do Grupo, também contou que não é de origem italiana, mas que se identificou muito com o grupo assim que o conheceu. Segundo ele, sua família foi literalmente formada dentro do grupo, uma vez que conheceu sua mulher (que é de descendente de italianos) lá e, algum tempo depois, os dois se casaram. Os dois filhos do casal, segundo ele, desde muito cedo, também participam do grupo e fazem isto porque gostam. “Antes de qualquer coisa, o grupo é educativo. Fiz meu mestrado nesta área e estudei sobre as origens deste povo que aqui chegou enfrentando todos os tipos de dificuldade que se possa imaginar. Eu me identifiquei de imediato e confesso que aprendi muito com estas pessoas. Por isso, sou um empolgado com a cultura italiana em Guarapuava e pretendo levar esta mensagem por onde quer que eu vá. Eu faço de tudo para que o grupo se mantenha sempre unido”, destacou Johann.

Novos tempos, grandes diculdades

O grupo que já contou com centenas de participantes desde sua formação, nunca recebeu o devido apoio por parte do poder público, lamentam seus dirigentes e participantes. De acordo com eles, por falta de incentivo, muitas pessoas deixaram de participar e, atualmente, apenas 40 participantes entre adultos e crianças mantêm acesa a chama da cultura italiana em Guarapuava participando dos ensaios todas as semanas.

Sem cobrar mensalidades, o grupo tem como única fonte de renda o jantar anual que promove. Este ano, o evento aconteceu no dia 27 de setembro, no Salão Social da Catedral Nossa Senhora de Belém, em Guarapuava. O salão ficou lotado como acontece todos os anos. A partir da renda obtida com o evento, descontadas as despesas, o grupo faz investimentos e tenta manter suas atividades.

O local onde acontecem os ensaios das danças folclóricas é emprestado. Atualmente, os encontros acontecem todos os sábados na Free Way Danceteria a partir da 15 horas. Johann e Paulo lamentam esta situação e destacam que o sonho de ter uma sede própria continua latente em todos os participantes. “Nosso grupo sempre primou pela família, por esta união que é a base de tudo. Hoje, percebemos muita falta de interesse por parte dos jovens em se tratando de integração. O comodismo é muito grande instigado pelas facilidades tecnológicas e pela modernidade nas música passageiras. Isto prejudica não só os grupos folclóricos como o nosso, mas também toda a sociedade que sai perdendo e muito com esta falta de interesse, com esta dispersão”, lamenta Johann que, por ser professor e trabalhar diretamente com adolescentes e jovens, conhece bem a situação.

Paulo reforça a opinião do amigo e destaca que os conceitos, principalmente os familiares, precisam ser revistos e que o poder público precisa olhar com mais carinho e clareza para os grupos sociais existentes na cidade. “O poder público precisa entender que nosso único objetivo é melhorar a vida das pessoas através da arte. As manifestações artísticas formam cidadãos e os tiram do mau caminho. Uma pessoa que tem o compromisso de participar de um grupo de dança uma vez por semana deixa de fazer muita coisa errada. Com isso, quem ganha é a sociedade. Mesmo sem apoio, estamos nos mantendo, mas a falta de estrutura é o principal motivo de desistência por parte das pessoas, principalmente dos jovens que estão muito mais interessados no imediatismo”, destacou.

Entraves ocasionados por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal também desestimularam até mesmo os antigos participantes do Grupo Anima. Johann conta que as prefeituras e empresas públicas perderam o interesse em realizar eventos por causa da burocracia que a lei causa. “Nunca participamos de eventos para ganhar dinheiro. Recebíamos o transporte e a alimentação, na maioria das vezes. Mas isto já nos servia de incentivo para prosseguir. Eu sinto que esta vontade, por parte dos participantes foi se perdendo e o grupo enfraqueceu, mas com nossa força de vontade, vamos reerguê-lo novamente. As viagens que fazíamos dava oportunidade para que os jovens conhecessem as diferentes realidades e se integrassem com outras regiões”, destaca Johann animado.

Recentemente o Grupo Anima fez várias reivindicações à Câmara de Vereadores de Guarapuava para apoiem suas iniciativas. Ainda não há nenhuma resposta, mas os integrantes se dizem confiantes e esperam que o poder público sinalize positivamente para com suas reivindicações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Coisas para fazer em Guarapuava

Fevereiro mal começou e ao contrário de janeiro, está voando! Apesar da semana ter sido rá…