Principal Categorias Matérias João Alberto Sékula: Uma vida feita a mão

João Alberto Sékula: Uma vida feita a mão

11 minutos para ler
0
754

Por Revista Visual
Foto: Revista Visual

 

João Alberto Sékula caminha com os olhos voltados para cima. Parece mirar aquilo que poucas pessoas reparam. Está sempre imaginando novas peças e colocando em prática as suas ideias inquietas. Boa parte da sua criatividade pode ser vislumbrada no terreno que contempla uma parte da Rua Saldanha Marinho e outra da 17 de Julho, no bairro Trianon, em Guarapuava. Lá, ele construiu uma vida inteira com as próprias mãos. Madeiras e pedras tomaram forma de residências e de quadros. Aos 65 anos, ele considera que é sua a capacidade inventiva que o move todos os dias.

Casado com Lucia Helena Ribas Sékula há 42 anos, João é pai de três filhos: Cristhian, Markley e João Alberto Filho. Até agora, tem duas netas. Ele conta com orgulho que conseguiu o sustento da família e manteve os estudos dos filhos sem máquinas ou patrões: chegou a ter cerca de 30 funcionários na marcenaria de sua propriedade, a qual registrou uma intensa produção.

João acredita que herdou do pai – que era marceneiro e artífice – e do avô materno – relojoeiro – a habilidade manual. Todavia, ele só percebeu que tinha talento para essa área na juventude, quando, pela primeira vez, resolveu consertar algo a pedido de alguém. Depois disso, desenvolveu-se na profissão e tornou-se apaixonado pelo trabalho artesanal. João é filho de Ziemowit Surek Sékula e  Joana Wolinski Sékula e teve sete irmãos: duas mulheres e cinco homens.

Um dos projetos de destaque que ele desenvolveu foi a recuperação de casas antigas de Guarapuava em quadros talhados na madeira. João buscou fotografias de construções históricas do município, sendo que a maioria delas foi destruída, e recuperou suas arquiteturas em obras que atualmente estão expostas Max Pizza, pizzaria administrada por sua esposa e seu filho caçula. Conforme João, na época em que as obras ficaram prontas elas circularam por diversos lugares da cidade, do Estado e do país. Aliás, a Max Pizza é toda obra sua. O estabelecimento parece um verdadeiro museu e contempla detalhes e peças esculpidas por ele em diferentes fases.

Dificuldades

Como é normal, João Sékula dividiu sua alegria com momentos de dor. Um sério acidente se tornou uma grande pedra em seu caminho. Quando fazia um quadro, foi limpar um pincel e a escova de aço estourou, lançando farpas em seus olhos. Pouco depois, ele deixou de enxergar, o que impediu a continuidade dos negócios na marcenaria. Nessa fase,  problemas relacionados à saúde se intensificaram, o que proporcionava dificuldades para realizar os seus trabalhos. “Eu admiro demais a minha esposa, Lúcia. Ela segurou as pontas em todos esses anos, com muita garra, e nos manteve unidos”, afirmou.

Um tempo após o fatídico episódio, ele obteve ajuda para conseguir um tratamento especializado em São Paulo, num instituto renomado. Um transplante trouxe de volta a visão do olho esquerdo e, assim, ele pode regressar aos seus projetos. Hoje, mesmo não enxergando com o olho direito, ele considera que consegue desenvolver as suas atividades sem qualquer empecilho.

Embora tenha enfrentado um câncer e esteja em tratamento para curar outro, João Sékula fala em resiliência e acredita que o poder de consertar as coisas pode ser espalhado para outras áreas da existência. Por isso, procura não se abater com as dificuldades. Assim, ele cita uma frase que ouviu de um amigo: “Nós devemos nos preocupar com o hoje e dar o nosso melhor, pois o tempo que ficaremos mortos é muito maior do que o tempo que ficaremos vivos. Precisamos aproveitar ao máximo as nossas oportunidades”.

Refúgio

Segundo João, ele sempre teve uma personalidade forte e inquieta. Neste sentido, os momentos de criação têm um efeito terapêutico, de introspecção. “Se você quer me ver quieto e concentrado, me veja fazendo as minhas coisas! Geralmente, eu já acordo com o plano feito do que eu quero produzir naquele dia. Durmo com o planejamento completo. Por isso, acho que vivo muito longe, viajando na minha imaginação”, ressaltou, contando que se sente mais saudável agora do que antes.

A família o aconselha a diminuir o ritmo do trabalho, para não cansar tanto, mas ele não considera parar. “Às vezes, eu pego encomendas sem eles saberem. Na semana passada, eu comprei um monte de madeira…”, revelou. Outra paixão é por automóveis antigos. Ele gosta de consertar e inventar alterações para os veículos e tem alguns exemplares que são seus verdadeiros xodós. Outro ponto forte de suas criações são obras sacras em madeira, embora assuma que não é uma pessoa religiosa. Gosta também de fazer reproduções de peças famosas, mas sempre dando o seu toque especial, mostrando uma voz autoral por trás das criações.

João disse que aprendeu com o seu pai a “flertar” as peças que está produzindo. “Eu gosto de namorar o que eu faço, mesmo quando é para algum freguês. Eu começo a fazer e depois me afasto para contemplar e perceber o que pode ser melhorado. O meu grande prazer é afogar o meu ego com o que eu faço, seja de madeira, de papelão, de plástico ou de pedra. Quando faço qualquer coisa, faço para mim”, finalizou. Ele mesmo desenhou e executou a sua casa, com o auxílio de apenas um ajudante.

Mantendo uma relação afetiva com a natureza e com o ato de cultivar, João mostra, orgulhoso, uma árvore que ele plantou na década de 1960 e que hoje está alta e imponente em seu terreno. Tal como aquela árvore, ele criou as suas raízes no local que era de seus antepassados. Tal como aquela árvore, ele pode até envergar, mas não quebra.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Coisas para fazer em Guarapuava

Fevereiro mal começou e ao contrário de janeiro, está voando! Apesar da semana ter sido rá…